sexta-feira, 9 de julho de 2010

Às voltas com as abstrações

Hoje eu peguei o ônibus errado. Sei lá. Fui pra outra direção. Vi prédios não tão conhecidos e ruas não muito comuns. Percorri um caminho longo, mais paradas, uns quantos entra-e-sai de gente indo pra não sei onde, claro; mas todas com obrigações, creio. Um homem insistindo em pagar a passagem mais de uma vez, uma mocinha pedindo dinheiro pra ajudar o filho doente, uns adolescentes querendo sentar todos um perto do outro, um moço que deve ter esquecido de secar os cabelos após sair do chuveiro (vai saber a pressa, né!), uma senhora limpando cuidadosamente o banco pra preservar sua saia cor-de-rosa... O menininho deixou cair algumas balas de goma e “depois a gente compra outra, não junte”, disse-lhe a mulher...


Eu indo pra outra direção... Conduzida, levada. E levados eram meus pensamentos, marotos. Tentava ler os dos demais apressados por tomar seus assentos. Todos juntos, porem sozinhos, fechados em suas carnes e ossos. E carnes gordas! Se não fossem as lãs do inverno a disfarçar o que a estética crucifica... A coisa é que a moda tambem castiga. Faz os corpos pecarem se vestindo horrivelmente confortável, porque tá ‘em voga'. Muitas das incapazes atendentes de lojas deveriam ser postas no banco dos reus por atentado à boa-fé da gente.

E o esquisito tambem sai vidro afora, se estende até onde a vista alcança. Lindo, o mar! O que não sai é o ar. É o momento da partilha de gás carbônico, enquanto nas calçadas os passantes respiram livremente. Por favor, abram mais algumas janelas. Eu entrei e logo abri a minha, não fui vacinada contra a Gripe A e logo estarei mais preocupada com o aglomero.

No coletivo em sentido contrário, por ora me contrario com o tempo que se perde ali. Mas com sentido longe, logo saio. A mente voa, remoendo. Se auto-explica, devaneia e volta pros personagens desse trem que visto do alto dos prédios parece uma caixa. “A caixa que anda”, pensaria uma criança; elas sim são criativas, já que esse entre aspas não criei, mas recordei o título de um livro visto, certa vez, quando acompanhava meus filhos em uma biblioteca.

Volto as atenções pro possível, que naquele momento era o necessário: descer do ônibus e dar trinta passos até meu (?) portão. O ônibus errado me levou ao mesmo lugar. Não me enganei, não. Caso fosse, admitiria. Juro! Eu sabia onde estava indo, apesar de preferir um novo caminho pra chegar; um trajeto maior e ainda assim, contornando um círculo, contudo pelo lado oposto. Porque mudar a rota às vezes é bom tambem. E eis que a grande parada pode sim, senhores, ser no mesmo ponto. Passa pelas minhas escolhas e feliz de mim se puder decidir por onde trilhar.

Amanhã voltarei a ser convencional, pois não terei tanto tempo pra rodar. Antes, devo comprar bala de goma. Adoro! E tomara que o menininho do início tenha ganhado outras. Tomara que aquela jovem mãe tenha abandonado a vida de pedinte; que o ambiente na lotação esteja arejado e que o cobrador seja mais paciente com algum homem que queira pagar por dois. Pagar pelos outros pode ficar pesado demais.

=)

Eis meu retorno com a brincadeira de escrevedora. Antes tarde... Aêeeeeeeee!

7 comentários:

Luiz Carlos disse...

É a melhor "escrevedora" do mundo!!!
Minha Linda sua capacidade de viajar e brincar com as palavras é impressionante; e nos deixam claro sua inteligencia e seu poder de expressar suas ideias através das palavras.
PARABENS!!!

dona Marcia disse...

Luiz, amado,
tua cumplicidade é o melhor estimulante. Contudo, sei que teu lado intelectual não sabotaria a sinceridade.
Obrigada pela visitinha.
Beijos.

Márcia Denardi disse...

Finalmenteeeeeeeeeeeeee... Já estava com saudade dessa guria e das narrativas dela. Te amoooooooo!
Beijos

Sibéle Cristina disse...

Amiga e assessora Márcia, não deves jamais parar de escrever. Sua intelectualidade fascina, mas a tua simplicidade, complementa tudo.. Por isso vais chegar aonde queres.

Ahhh... Eu adorooo balas de goma também.

Levanta, sacode a poeira e dê a volta por cima...(conheces essa música?)

Meu slogan... Rss
Beijos

GIRASSOL disse...

Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça ... e de luz ... aaêêê Marciaaaa!
Lindo ler você, te sentir batendo asas na escrita, iluminar nossos caminhos e nos fazer "ver"! Continue ... beijosss!

GIRASSOL disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
dona Marcia disse...

Deninha, Sibéle (mais que Cristina), Thaisinha Girassol... mais gostoso que escrever é ser compreendido, mesmo quando brincamos com as palavras, mas não com os sentimentos. Taí! É isso que me move... Aliás, é o 'sentir' que movimenta nossos dias, assim como a amizade e o impulso que vocês me dão. Sinto gostosamente. Bjãaaao nas três!