quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Minha mãe é que está certa

Uma vez eu era criança. Minha marca registrada eram as trancinhas ou as marias-chicas que dona Dilma caprichosamente fazia em minhas crespas e (sempre) volumosas madeixas. Na década de 1980 eu não desfilava com tic-tacs lindinhos daqueles com brilhinho fosforescente e tudo (entenda-se Glitter), muito menos usava borboletinhas com strass, marias-chiquinhas ou elastiquinhos (?) coloridos semelhantes aos que minha filha usou um sem número de cores e modelos. Isso não constava na lista de prioridades; era caro. Se eu tinha uns poucos desses, foram presentes que ganhei e só usava quando ia à missa.

Para prender meu penteado sempre perfeitamente repartido ao meio, minha mãe cortava tiras de tecido e decorava minhas tranças. Às vezes surgiam em casa umas fitas de cetim que tinham comprimento pra dois bons laços. Tcharaaam, era o enfeite!

Lá ia eu pro jardim do Sesi e mais tarde pro Teresa com fitas diferentes. Tenho amigos de infância que não lembram direito de mim, mas lembram de uma coleguinha que sempre ia de tranças pra aula. E pra missa, e pra catequese e pro... era isso.

Eu não saia pra outros lugares. Raramente ia à casa do pessoal da escola e quando acontecia era graças à era pré-internet em que as crianças queimavam fosfato criando os cartazes mais bonitos, as melhores ilustrações; quando a Guerra do Contestado era explicada com fantoches fazendo os menos criativos morrerem de inveja porque com o quinteto Marcia, Patrícia, Jamille, Cristiane e Jefferson ninguém podia (nem os – naquela época – respeitados professores).

Certo dia, provavelmente era inverno, eu cheguei em casa de manga curta e calça dobrada até os joelhos. Levei uma boa surra e fiquei longas dezenas de minutos em pé atrás de uma porta. Sim, porque as meias eu havia perdido. Gente, passados alguns anos, vou confessar uma coisa aqui. Eu não contei isso nem pro padre do confessionário da Primeira Eucaristia!

Vamos lá: sabe o que aconteceu com minhas meias? Eu apostei que as jogaria num pasto mais ou menos perto de casa, eu passava ali todos os dias. E joguei! E o guri que todos os dias me trazia da escola deveria ter ido lá pegar, porque elas caíram em uma parte onde tinha água. Mas ele não foi! Sem sucesso (e sem autoridade sobre o Lêda), eu não consegui alcançar. Deu no que deu: perdi as meias, mãe.

As blusas me acompanharam até em casa, uma na cintura, uma na pasta. E uma meia de lã que eu deveria estar usando sob a calça do uniforme acabou amarrada no meu pescoço. A mãe ficou irada quando me viu daquele jeito num dia tão frio. Me pelar assim foi uma afronta para ela que tanto havia se esforçado para que sua menina não ficasse gripada.

Todo inverno era a mesma coisa: “Coma feijão. Se agasalhe. Descalça, não. Vá secar bem esses cabelos. Não tome gelado. O vento sul faz mal. Leve sombrinha (isso virou um comercial de não sei que marca de açúcar). Aquela vida era um suplício. Deve ter sido difícil fazer com que uma criança passasse toda a infância sem ter aquela pneumoniazinha que fosse. Sem levar em sua carteirinha de saúde uma anotação de antibiótico contra gripe.

Hoje eu me fantasio de dona Dilma e negocio o tempo todo com Tiago e Manoela. Aplico as mesmas lições que aprendi com o melhor manual que eu poderia ter, o da sabedoria da progenitora. É eterno. Naquela época pegava gripe quem facilitasse. Diferente de hoje que o vírus anda disfarçado de morte, com machadinha e tudo. Poucos organismos saem ilesos. Fortalecer o sistema imunológico no inverno – em todos – é uma preocupação que sempre me cerca (será trauma?).

Tenho pensado nisso desde o início do assunto Influenza A. Há um bom investimento em publicidade em toda a mídia e suspensão das atividades escolares, sociais, culturais e esportivas coletivas. O movimento no centro de Tubarão se assemelha ao de um dia de domingo. Nas lojas, praticamente só os atendentes. Fique em casa. Lave as mãos. Use álcool em gel (dizem que não há mais o produto nas prateleiras). Não passe as mãos no rosto. Proteja-se de tosses e espirros. Mantenha o ambiente ventilado. Evite aglomero. Use máscara. Até alguém são ficar doente por passar mais de vinte e quatro horas com a mesma – e úmida – máscara.

A baixa imunidade muitas vezes é silenciosa. O departamento de epidemiologia diz que a pandemia ainda não chegou ao ápice. Orientações são seguidas, tudo bem. Mas e o vírus que tá doido pra baixar em um corpo amuado? Como diz minha mãe, “ficam todos aí sem se resguardar, depois passam a reclamar que pegaram a gripe e não sabem como, se seguiram direitinho o que diz nos folhetos”.

Ricardo de Mattos, colaborador do Comunique-se, publicou que “costuma-se dizer que os mais velhos têm muito a ensinar. É uma ideia acertada, mas o acerto é mais amplo do que se pensa ao repassá-lo. Os mais velhos ensinam muito o que se fazer. Não poucas vezes, porém, ensinam o que não fazer. Um brinde, pois, aos mais velhos".

Não há medicina que supere. As mães são sábias, viu?! Aplausos.

=)

O que te faz feliz?

12 comentários:

manú disse...

Sim, querida Jornalista você tem razão quando ressalta a importancia do que dizem os mais velhos. Deveriamos refletir mais sobre isso...bjuu

dona Marcia disse...

É verdade... refletir e apreender, Manú. Se capricharmos funciona e quem sabe depois que ficarmos 'mais velhos' sejamos exemplo pra nova geração...

Nel disse...

Muito bom!!!
Ainda vivo esse tempo... pequenos cuidados diariamente oferecem grandes defesas no futuro...
Bjus neguinha!!!

dona Marcia disse...

Sim, sim. Eis as diferenças dos detalhes, dos cuidados.
Bjus, Nélis bonita!

As Garotas disse...

"Minha mãe é que esta certa"
Nós temos muito o que aprender com nossa mãe assim como nosso pai,
eles sempre querem o nosso bem. Por mais que a gente pense que estão errados, na verdade eles é que estão certos...

dona Marcia disse...

Meniiiinas, essa é a mais pura verdade. Mas só descobrimos o real sentido quando nos tornamos pais, mães. Como vcs já valorizam isso desde agora não deixem de aproveitar todos os ensinamentos, amadas.
Beijos.

Márcia Denardi disse...

Mamãe sempre está certa! Agora eu sei o quanto a minha desejava que eu desse crédito para o que ela falava. Será que ainda está em tempo?
Amo seu texto, Marcinha!

dona Marcia disse...

Sempre é tempo, Dena. Um brinde a isso! Obrigada pelo carinho, amiga.

Marco Antonio Mendes disse...

Nossa mente é a coisa mais maravilhosa do mundo. Só nos lembrando do que vivemos pra esquecer por uns minutos essa tal gripe.

Fico te imaginando de maria chiquinha, agora!
Beijoooo!

dona Marcia disse...

Risos. Qualquer dia posto no Orkut uma foto daquele tempo. Quanto ao agora só quando tivermos uma festa jeca, hahaha.
Beijos, Marco Antônio!

Fernanda disse...

cautela neh..precisamos sempre..e aproveitar o lado bom das coisasss! xD
beeeeijo meu bem!
;**~

dona Marcia disse...

Um ip ip uhaaa pro o otimismo, Fezinha!
Beeeeijos, lindona!