terça-feira, 3 de agosto de 2010

Floresceres

Aquele episódio com Valentina foi como se um fantasma sob minha cama houvesse puxado meu pé logo que as luzes se apagaram. Seu egoísmo e futilidade nos afastaram, arruinando minha juventude. Para sua ira passei a ter mais tempo livre e compor minhas melodias, mas também para minha amargura, porque na época meu viver se constituía em recordar aquele cheiro, aquela gargalhada. Procurava esquecê-la compondo a seu respeito.

Aquela mãe tinha sangue de barata. Ou um radar que captava ao mesmo tempo todos os sinais daqueles filhos pequenos e irrequietos. Ah, eu quase odiava crianças! Também não já não me encantava com a serra e muito menos gostava de maçãs. Evitava tudo o que me lembrasse aquela ex-namorada. Uma daquelas crianças virou pra janela e deparou-se com as frutas: - Olha, mãe! Uma árvore com maçãs! Falou excitada. Involuntariamente eu bati meu copo de cerveja na mesa e gritei: - É uma macieira, seu insuportável! O ambiente emudeceu. O pai das crianças avançou contra mim, revidei e resumimos o horário de expediente do lugar.

Desaprovando minha falta de escrúpulo, Valentina evaporou. Não era a primeira vez que eu me exasperava por fatores externos. No dia seguinte, recebi a mensagem em meu celular, terminando nosso conflitante namoro. Anos discutindo a relação quando na verdade deveríamos era nos relacionar! Tempo esmigalhado... Naquele domingo eu havia ido ao restaurante que não queria, sentei no lugar onde não desejava, para almoçar algo que eu não gostava. Eu vivia para Valentina. Permitia que ela sempre desse as cartas. Pra quê?

Passaram-se sete anos sem que nos víssemos. Meus fios grisalhos denunciavam a chegada da maturidade, meu lado amargo acentuou-se, assim como a vontade de casar, constituir família – sem filhos. Conheci Anita. Morena, cabelos ruivos, não tão longilínea, não tão inteligente, mas me amava, atendia meus anseios, vivia pra mim em troca de aconchego. Seis meses foram o suficiente para marcarmos a data do casamento. Noite pomposa. Nossas núpcias foram na Argentina, nem tão longe, nem tão perto. Valentina odiaria! Aposto que preferiria Porto de Galinhas ou Angra. Sempre criticou quem deixa as belezas desse país para fazer turismo no exterior. Viajamos. Anita, pouco astuta, voltou grávida mesmo sabendo que eu não queria filhos. Uma menina estava por vir.

Ao anunciar o sexo e me perceber tão inerte quanto quando fui informado sobre a gravidez, preferiu não revelar que nome daria ao bebê. Passei agoniado durante os meses restantes; chegava a sentir calafrios, pois antevia algo que me desapontaria. Durante aquele torto início de vida matrimonial e diante de minha indiferença frente às mudanças bruscas Valentina se fazia incrivelmente presente. Era por ela que eu ofegava, mas em sonho, a ponto de parecer real. Pobre Anita, que tanto me amava... Tornei-me um homem mais terno, porém não a proporcionava uma troca suficientemente justa. Quando a menina que ela carregava nasceu, meu sentimento foi de desassossego. Num singelo agrado, a mulher que se casou comigo quis batizar a criança com o nome de alguém que ela brevemente soube que eu havia amado. Apesar da estatura forte, Anita era frágil e não resistiu ao parto da sua Valentina.

Olhando agora para esta criança com sobrancelhas tão arqueadas quanto às minhas, acolhida pelo colo da babá, me sinto culpado pelos anos de ingratidão e insensatez para com uma vida que foi tão bondosa comigo. Coube-me amar uma mulher e sofrer por isso até perdê-la. Fui acalentado por outra, por um amor sufocante que não suportou a si próprio. O pesar fica na poeira quando vejo que o tempo sabiamente foi meu cúmplice me brindando com uma segunda lua-de-mel. Da maneira que sempre sonhei em festejar com a mulher que durante a vida inteira nutri profícuos sentimentos. A pequenez de minha juventude me impediu de enxergar essa dimensão. Agora avanço, assumo. Tomando suas mãos, sinto-a como única de minha existência, agora mulher feita, com caprichos amadurecidos. Seu presente de casamento, além das alianças, foi nossa filha, tão intensa quanto à mãe adotiva: Minhas Valentinas.


P.S.: Estamos em Pernambuco há uma semana. Penso em escrever mais sobre essas vivências. Um livro, talvez; ou um conto. Não nesta década... seria prematuro. Já plantei árvores, já temos filha...
Descansarei feliz...

=)


Esse conto que só nesse momento tiro da gaveta foi um dos meus resultados no curso de Formação de Escritores do Sesc/Tubarão, há quase um ano, quando abstraí aqui. Agora há inscrições para nova edição a ser iniciada no próximo find. Faça contato com marcorodrigues@sesc-sc.com.br e não desperdice essa ótima oportunidade de desenvolver o criar literário. Corra lá! Quem sabe eu publique no Abstrações os outros dois contos escritos em 2009...

5 comentários:

manú disse...

Parabéns por proporcionar a viagem dentro de uma leitura moderna, cheia de imaginação bjuuu

dona Marcia disse...

Manú, o legal dos contos é que o 'aumentar um ponto' fica justamente por conta de nossa imaginação, não?!
Adoro suas visitinhas. Bjãozão!

Fabi Pangrácio disse...

Eu li esse conto no papel antes de ser entregue na sua aula, nos nossos tempos de trabalho juntas :D
E como sempre, acho uma viagem maravilhosa tudo o que você escreve.
Hiper talentosa, admiro muito você. Você sabe :)
Beijão

dona Marcia disse...

Isso, Faaaabi! Na época, estávamos juntas na Assessoria e você acompanhou minhas (ins)pirações, me incentivando sempre.
Obrigada pelo carinho e amizade, fofa!
Um abraço beeeeem apertado!

Maru disse...

Maravilhoso texto, Marcinha! Realmente, muitas vezes, deixamos de perceber ou valorizar pequenos tesouros em nosso dia a dia. Aquele grande amor q idealizamos tanto, está ao redor ou bem aqui. Basta sintonizar! Feliz Dia dos Namorados pra vc e seu amor!!!