quinta-feira, 17 de setembro de 2009

São as experiências que dão vida

Imagine que você esteja segurando um novelo de barbante, procurando a ponta e quando encontra a pega com a ponta dos dedos e sem querer o novelo cai e foge do controle e a linha vai se desenrolando e o ninho de corda se fazendo aceleradamente não perdido por completo porque você se apossou do fio da meada mas agora espalha o emaranhado procurando o fim. Essa cena de segundos e sem pontuação pra mim é uma perfeita analogia pra descrever o surgimento da inspiração quando desenvolvo um texto até mesmo noticioso.

Quando deixamos cair um novelo nos desequilibramos um pouco tal qual quando a inspiração surge alheia à nossa vontade. Entretanto, quando seguramos a ponta “não perdemos o fio da meada”.
No curso de Formação de Escritores que estou fazendo no Sesc da Shark City nossa primeira missão foi criar um conto. – Alguém vai ter problemas, pensei. Chuviscaram temas como morte,
medo, traição, intimidade (ousei lascar essa), doce, inveja, amor, conflito, brilho, recomeço e reparação. Palavras carregadas de intenção, todas intrigantes. Entre recomeço e reparação, a última deu um passo à frente; nada mais justo, considerando que ambas tem um elo de ligação, o recomeço é a ação da segunda palavra.E eu já regando as mudinhas do alguém vai ter problemas. O alguém seria eu, o problema seria não conseguir desenvolver o cobiçado conto.

Lá pelas tantas, Tabajara Ruas, cineasta e escritor, ali ele estava como instrutor encarregou-se de servir nosso jantar: a entrada foi a previsibilidade versus o estranhamento. Dizia o cara que o conto deixa de ser interessante se der nome aos bois logo no início, quando prevê o resumo da ópera. Como leitora, levanto o cartaz favorável: Abaixo as banalidades. Viva o incomum! O autor tem a obrigação de despertar o estranhamento em quem está lendo. O início da história tem que ser uma isca, que levar ao ímpeto da descoberta, da surpresa.

O refinado prato principal, bem ornamentado, foi posto à mesa em forma de vídeo, não de texto. Como imagem é tudo, assimilamos perfeitamente uma boa forma de utilizar o não-dito. Usando cenas do belo faroeste Rastros de Ódio (John Wayne), Tabajara mostrou a utilização da elipse numa época em que John Ford fazia cinema com economia de meios, dando asas à nossa imaginação.

Era final da sexta-feira de trabalhos e estávamos fartos do jantar quando nos foi servida a sobremesa. Sem demora, pois esse capricho se torna um vilão da balança se servido horas depois da refeição. A especialidade da casa denotava toda a beleza e elegância. Nos deliciamos com o ‘não percam tempo em iniciar o conto’ acompanhado por ‘tudo o que surgir agora deverá ser anotado’, regado ao molho de ‘não se preocupem com a estrutura, apenas com a idéia’. Por educação experimentei, contudo, não tive coragem de salpicar na minha taça aquele tal de ‘o menos é mais’. Sei que é de bom tom usá-lo, mas logo me remeti aos textos do blog que deslancho a escrever e nunca mais paro e receei maltratar o estômago logo no início. Melhor ir devagar.

E assim fui pra casa. Ah! Deixa eu voltar um pouco. Nos instantes finais, enquanto o professor passava outros ingredientes pros vorazes aspirantes, me surgiu um final, digamos, apetitoso pra minha história. Aí sim, fui pra casa – matutando. Já tinha o final do negócio. Já. Tinha o final. O final da história. Negando-me a não corresponder com as expectativas, voltei na manhã seguinte querendo deitar nas cordas de tão sonolenta por ficar ruminando sobre isso entre os instantes de sono. Como desenvolver, dona Marcia? Eis que surgiu o começo assombrado por uma inquietação. Antes da hora do café eu que já segurava o novelo desde a noite anterior, deixei-o cair. Eu não cabia em mim de alegria. Em um só fôlego digitei os 7.545 caracteres (realmente não usei aquele ‘o menos é mais’. Sei lá, meio ácido) loucamente e sem ensaio. O parto aconteceu antes do almoço e meu filho, de certa forma prematuro, nasceu bem criado ao ponto que o instrutor avalizou minha produção.

Emaranhado. Suspiro. Alívio. Passados quinze dias (nesta sexta teremos o segundo final de semana da oficina), o conto ainda não tem nome e passa por ajustes. Confesso continuar um tanto intrigada, pois minha produção foi resultado de algo inexplicável, ou seja por não pertencer a nenhum dos meus gostos literários. Por outro lado, fiquei bastante satisfeita por perceber como cada lembrança de experiências diversas vividas ou observadas foram passadas para o papel dando vida à história. Ao final do curso o texto dará corpo ao livro junto às criações de todos os participantes.

Por enquanto não publicarei aqui nem comentarei detalhes sobre forma ou conteúdo. Meu objetivo com o ineditismo é a publicação no livro. E que aflição ao ser lida assim. O respeito para com as palavras e ao leitor, inclusive ao que me lê diariamente no jornalismo é o mesmo. Mas publicar o conto é diferente de publicar idéias no blog, sei lá! Mandei o implume pra nove amigos críticos chatos,  alguns habituados à literatura, outros nem tanto e essa foi a intenção. Sete leram e já me é suficiente. Escolhi estes pela certeza da sinceridade. Sem falsear, não tiveram indigestão e recebi até sugestões.

Obrigada, gente, pela gentileza de me ler. Obrigada pelo respaldo. Oxalá eu seja tomada de (ins)pirações pra um dia ressurgir com novos e bons contos ou com a continuidade do enredo desse primeiro. Esse foi um dos palpites...

=)

Você ainda não se atreveu a escrever algo de verdade? Agora é a hora de acordar.
Tô dando uns beliscões aí, tá sentindo? Use a seu favor, dê um abraço de urso na inspiração e depois me conte.

12 comentários:

Niler Barcelos disse...

E ai Dona Marcia tudo certo?

Eu sempre passo por aqui uma ou duas vezes por semana.

Acabei de adicionar um link para seu blog lá no Siriloko.

Obrigado pelas visitas. Abraço!!!

manú disse...

Realmente o desafio de criar um conto foi interessante.Incrível a capacidade, a imaginação nossos fios tão diferentes tecendo algo criativo. Não importa a peça mas o percurso, o trabalho , as descobertas. Bjuu

Guilherme Corrêa disse...

A arte de escrever transcende o imaginário, toma forma e o novelo que antes parecia não ter fim, por fim, faz-se completo, novo e arrumado. Visitei, gostei, virei fã :D

dona Marcia disse...

Niler, querido. Obrigada pela visita e pelo incentivo (continuo com medo do animal publicado no seu bem-humorado 'Siriloko', hahaha).

Então, Manú?! Gosto de te ler no 'Conversas em vários Tons'. As descobertas são mesmo algo mágico. Adorei! Amanhã nos vemos no bat-local, hehe.

Gui, seja muito bem-vindo às minhas abstrações, lindo! Fico feliz por ter gostado. Continue por aqui, viu?! Até outra horinha no 'Alguém sabe um blog?'

Bjãao em todos vocês!

Laudelino disse...

Valeu pela presença lá no blog do Clube do Conto. Apareça mais vezes! Um abraço!

Anônimo disse...

Dona Marcia, é um prazer te ler mais e não pare.

dona Marcia disse...

Laudelino, adorei seu Clube. Em breve te darei notícias do nosso. Obrigada pela visita.


Bem-vindo, anônimo.
Nem sou curiosa pra inutilmente desejar saber quem é, hahaha. Obrigada e boa semana pra você.

Alexandre Lobão disse...

Oi Dona Márcia!
Gostei muito de seu blog, e sua prosa ágil e simpática! Sugiro que você comece a pensar, cada vez mais seriamente, em buscar uma editora para seus escritos! :)
Forte Abraço e obrigado pela visita ao meu blog!

dona Marcia disse...

Caro Alexandre,
fico feliz e lisonjeada por seu comentário. Muito obrigada pela visita.
Sucesso nos seus trabalhos!

Fabiana Pangrácio e Caroline Bitencourt disse...

Eu ja li a história, e sei o final! la la la laaaaa =P hehehe
Mas não vou contar...
O que posso adiantar é que a história é muito bem escrita, como todos os textos desta minha chefa querida.
Beijo, adoro você

FABI

Márcia Denardi disse...

Lindonaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa... tô bem louca pra ler o livro. Quanto vai custar o exemplar? Adorei, flor. Aiiiiiiiiiiiii, quem me dera ter esse talento todo... :D
Beijussssssssss

dona Marcia disse...

Fabi, lindooona!
Você é uma das que além de me aturar tem que ler minhas pirações, haha. Obrigada, delícia de pessoa! Bjus.

Então, Deninha?!
Ainda não sei maiores detalhes, mas te informo assim que possível. Você tem talento sim, bonita. Não foi à toa que venceu com louvor 4 dos anos mais importantes de nossas vidas.
Te adooro!
\o/