domingo, 13 de setembro de 2009

Que venha a Helena

Em se tratando de televisão gosto mesmo é de jornais, documentários, entrevistas. Mas perdi poucos capítulos de Caminho das Índias. Faz anos que brinco que chamar alguém de vaca não é pejorativo, já que se trata de um animal sagrado na Índia. Viu como é verdade? E a série televisiva caiu no gosto da massa, tanto que o episódio seria estendido por mais duas semanas, se não fossem as sessões de quimioterapia da autora Glória Perez.

Fechou nos 203 capítulos previstos, mas os finais foram longe. Com exceção do dia santo pro futebol, quartas-feiras, os noveleiros iam ao delírio pelo prazer prolongado durante as quase duas horas de trama. O último capítulo alcançou esse tempo.
E a aprendiz de vigarista saiu com cabelos ao vento, confirmando algo que eu levaria um bom dinheiro se tivesse apostado com alguma amiga novelista:

sem sal Yvone (Letícia Sabatella) não sofreu no final – aliás, a atriz deve ter sido afetada pelo papel, pois segundo O Globo, no último mês de gravação a moça vinha irritando vários colegas com um comportamento, digamos, imprevisível.
No folhetim anterior do horário nobre global, A Favorita, Flora abria ala, mas o autor João Emanuel não teve piedade de sua bandida deixando que fosse morta pela própria filha.

Dessa vez e seguindo a linha do todos foram felizes para sempre – inclusive os vilões – não houve punição pra perigosa que não livrou sequer o carcereiro. Também não houve pra Maria de Fátima (Glória Pires), naquela vez em Vale Tudo. A malvada casou-se com um príncipe italiano e continuou amante de um bonitão lá. Luxúria! Pra mim a melhor foi Bia Falcão. Só mesmo a Fernanda Montenegro na pele da mais perversa de Belíssima pra terminar a novela com o gostoso Mateus (Cauã Reymond), em Paris.

Agora, no núcleo indiano quem tinha as lamparinas do juízo apagadas era o irritante Manu, incorporado por Osmar Padro. O comerciante hiperativo casa direitinho com o Tião Galinha vivido pelo próprio Osmar em Renascer, naquele quadro do Vídeo Show onde um personagem conversa com outro. Gostaria de ver esses extremos. Vou abrir parênteses: Gosto da letra da música-tema de Tião Galinha. Parênteses fechados.

Entre os Cadore, Eva Todor deve ter assistido os últimos capítulos com certa paixão, pois no meio de setembro sua Cidinha Cadore sumiu da novela ao ter que passar por uma cirurgia. A senhorinha tem 89 anos. Aliás, aplausos para os personagens Cidinha, Cadore (Elias Gleizer, 75), Shankar (Lima Duarte, 79) e Laksmi Ananda (Laura Cardoso, 81). Gosto muito mesmo de atores idosos, principalmente quando se trata se gente tão brilhante. Fico me perguntando se esses que hoje fazem Malhação, por exemplo, chegarão lá com tamanho vigor.

E a secretária Wal (Rosane Gofman), hein?! Queria que ela tivesse encontrado um namorado legal. Ela era apaixonada pelo sisudo patrão. Glorinha (Perez) poderia ter sido mais complacente com a balzaquiana tão prestativa. Tudo bem que a funcionária passava um bom tempo navegando no Second Life, que raiva e isso responde ao porquê de as empresas bloquearem o acesso a sites assim, já toquei na ferida aqui. Pobrezinha. Ficou com o romance virtual... Pelo menos na última festa da Estudantina alguém lindão e bem sucedido poderia tirá-la pra dançar ao som da Maria Bethânia, que cantou sob a batuta de Tônia que renunciou aos estudos para, ao lado de Tarso (Bruno Gagliasso), “viver, e não ter a vergonha de ser feliz”.

Glória Perez, autora cuja artéria novelística é movida por evidenciar questões sociais, a exemplo de maternidade por substituição (Barriga de aluguel) – o tema voltou com a indiana Surya que ficou impune, transplante de órgãos (De Corpo e Alma), crianças desaparecidas (Explode Coração), clonagem humana e drogas (O Clone), e deficiência visual (América), agora trouxe a esquizofrenia, muito bem representada por Bruno.

A Associação Viva Cazuza, o Criança Esperança (lógico!) e o livro Mentes Perigosas (Ana Beatriz Barbosa Silva) tiveram espaço no horário nobre. O merchan já deve ter arremessado a obra para o ranking dos mais lidos. E a T-shirt da Inês (Maria Maia)? Também achei irada e fui pra internet averiguar: a camiseta eletrônica pode custar até R$ 150. Será que chove peças na 25 de Março?

Comédia à parte foi o psiquiatra Castanho (Stênio Garcia). Para adentrar na clínica dava um salto pra não pisar no tapete. De médico e louco...

Independente de plagiar a vida de real, penso que seja válido acompanhar as novelas. Mas não pra se forçar a usar o sutiã de Norminha ou ficar com os tik e are baba por aí a fora e detesto quando alguém fica com essas bobagens que a novela ensina, e sim para abrir reflexões sobre os assuntos recorrentes. Entre culturas, relacionamentos, posturas negativas e doenças, este último é o que se sobressai.

E não foi só a esquizofrenia do Tarso (e dos doentes reais com os quais ele contracenou) ou a sociopatia de Yvone. Melissa com sua obsessão pela beleza, a inveja de Surya por Maya, a negligência de Ilana e César quanto à educação do bebê Zeca que por sinal era tão preconceituoso quanto os indianos de casta em relação aos intocáveis nos dão outros sinais: São sintomas de que há algo não auspicioso na nossa sociedade, muitas vezes sentado bem do nosso lado na hora da novela.

=)

O Fantástico deste domingo mostrará cientificamente os motivos pelos quais as pessoas se apegam nas novelas. É lugar-comum dizer que por meio dos personagens o ser humano se projeta de certa forma desejando seu estilo de vida e personalidade. Aguardemos o quê de extraordinário que eles mostrarão no programa.
As Helenas de Manoel Carlos serão assunto na revista eletrônica. Este é assunto para um outro longo post.

11 comentários:

Cintia disse...

Bom nega, nos últimos tres meses eu não acompanhei os indianos. pela falta de tempo desaprendi a gostar de novela ...aprovaitava o tempo, o pouco tempo q eu tinha para outras coisas..MAS.. as Helenas eu assisti muito. E lá vem seu Maneca com a classe média alta do RJ.Mostrando o minimo da vida real dos brasileiros..se eu assistirei? SIM!! pq ai vou poder critiar hehehe

dona Marcia disse...

Se não me engano foi esse mesmo autor que disse no Vídeo Show que a vida real já é dura demais pra ser repetida na novela... jura que é tudo pura ilusão, rss.

Abraços, bonita.

Fabiana Pangrácio e Caroline Bitencourt disse...

Com certeza tu fez uma pesquisa minuciosa né, ou isso tudo é memória?
Minha mono segue um pouco essa linha de pensamento. A influência da mídia sobre as pessoas.
Amei. Congratulations ;)
Beijos
FABI

Eduardo Henrique disse...

Na minha opinião, Glória Perez escreveu boas novelas até "O Clone", depois declinou. Novelas com temas estrangeiros demasiadamente forçados, histórias com tantas idas e vindas que chegam a entontar, pares românticos que são anunciados antes da estreia e não ficam juntos no final. Eu esperava por um final da personagem vivida por Vera Fisher, mas não aconteceu. =/

dona Marcia disse...

A mídia é o que nos move, não, Fabi?! Já provou meu amigo Google que me auxiliou na crítica, hehe. Fiquei curiosa pra ler teu TCC,pois gosto do assunto que estás abordando.
Bom trabalho, amiga!

Então, Edu?! Realmente o elenco teve alguns atores 'perdidos' tanto no 'mercado' quanto na Lapa Vá entender?!
Abração, caro!

Klein disse...

"Fico me perguntando se esses que hoje fazem Malhação, por exemplo, chegarão lá com tamanho vigor."
Marcinha, com certeza não vão muito longe não.. até pque alguns atores lá são péssimos, estão apenas no "papel" de rostinhos bonitinhos na TV..
Parabéns! Me proporciou uma ótima leitura!

dona Marcia disse...

Coxinha,
disse Nelson Rodrigues que beleza é fundamental. Mas, convenhamos: o conteúdo tem seu lugar no pódio, com certeza. Brigadão pelo incentivo. "Volte sempre", haha.
Beeeijos!

Márcia Denardi disse...

Marcitaaaaaaaaa... Sabe, eu não gosto nem um pouco de novela, mas por um lado vc tem razão. Ela é uma oportunidade de abrirmos nossos olhos para o mundo e seus problemas. De qualquer forma, acho que de longe, as desvantagens são maiores do que os benefícios. Por isso, prefiro ler seus posts, que me deixam atualizada e não deterioram minha personalidade com coisas fúteis, como fazem as novelas... Mas gente, é só minha opinião, tá? Uiiiiiii!

dona Marcia disse...

Faço coro com você, Dena! Infelizmente é o que a massa tem maior acesso e infelizmente (ainda mais) vai além da distração, pois não sabem reciclar...
Beijãaaoo!

Ademir Furtado disse...

Márcia
Eu não assisto novelas, e também fico meio irritado com os colegas que ficam repetindo essas supostas expressões idiomáticas da Índia, que nem os indianos conhecem.

Mas tenho minhas dúvidas sobre a possibilidade de se discutir questões de interesse social a partir de reflexões sobre questões colocadas nas novelas. É que as abordagens nas novelas são feitas sempre num nível muito superficial, e muito moralista, pra poder ser entendido pelo grande público.
Ainda mais agora que a televisão inteira aderiu ao insuportável politicamente correto.
Acho que a melhor maneira de se discutir a realidade brasileira é varrer de nossa frente todos os filtros que a sociedade oficial, através da mídia, coloca em nossos olhos. Inclusive as novelas

dona Marcia disse...

Caro, só agora li seu post. Eu assisto televisão quando possível, e o faço sem culpas; mas TV toma muito o tempo, então não é meu meio favorito.
Você está certo, pois o moralismo não serve para mais nada além de para "apontarmos" o politicamente correto que não passa de falácia.
O melhor meio para discussão social é longe de filtros, sim. Talvez a escola e as igrejas sejam os ambientes adequados. Mas no que se inspiram os professores e pastores? Logicamente não é somente na academia. É também através da mídia, passando pelos jornalistas e outros formadores de opinião. Visciosamente. Lamentemos, ou filtremos: Está em nossas mãos.
Muito obrigada pela visita. Felicidades a você.