domingo, 6 de setembro de 2009

A roupa preferida

O legal de escrever é que mesmo sendo algo livre e infinito, o produto é sempre resultado das percepções e acontecimentos - às vezes banalidades - em nossa volta. Assim como nas artes plásticas, na música, no cinema, no teatro.


E esse conto surgiu de uma peripécia que minha filha revelou enquanto conversávamos no MSN. Reunindo algumas circunstâncias de sua vida por aquela semana e algumas características da pré-adolescência eis nossa produção a quatro mãos:

...Saudades daquela calça. Foi presente dado pela amiga de minha mãe... Que legal, porque rosa é uma cor naturalmente feminina. Por mim eu a usaria sempre: era abrir o guarda-roupa e ela pulava nos meus braços como meu gatinho quando eu chegava para abastecer o potinho de ração.

Mas não, era a calça de ir passear.Havia outras. Tinha saias também e alguns vestidos. Mas aquela calça... Casava com tudo! Camiseta branca, blusinha rosa claro, rosa escuro, preta... Bem estilosa. Teve um dia em que na escola havia uma comemoração no horário de aula. E adivinhem: os alunos poderiam ir sem uniforme!

Jura que minha mãe ia gostar da idéia (aluno tem que estar uniformizado porque diante de um imprevisto todos saberão que ele está no período de aula, dizia. Que saco!)!

Fui pra casa ensaiando a entonação pra convencê-la a liberar a calça pra manhã seguinte. Pensei em várias propostas. Uma delas foi ficar um mês sem usar aquela roupa... nem precisou. Cheguei, pedi e ganhei. Às vezes não entendo as mães. Hora são terrivelmente perversas conosco filhos indefesos. E em outras horas são terrivelmente lindas, fofas, amadas.

Saí feliz da vida pra aula, transbordando alegria. Sentia-me outra pessoa quando usava aquela calça. As listras brancas me deixavam maior. Sei lá. Combinava até com o tênis. Era tudo!

Eu participaria da gincana e meu visual estava o mais adequado, digamos assim, para o momento. Tinha meninas usando saia, outras a calça da escola, a maioria de jeans e euzinha desfilava uma calça rosa, com listras brancas fazendo o look perfeito com a camiseta da equipe: baby look (advinhem a cor! Não, já respondo!) r-o-s-a com destalhes pretos! Adooooro!

Quando lembro esse dia, me surge uma pontinha de remorso... Ainda tenho a foto da turma, todos trajando camiseta rosa com detalhes pretos estampada com a lindona Pink Panther. Até os meninos se renderam! Não sou uma das maiores da sala, então estou bem na frente, na foto nostálgica... E o buraco imenso gigante da minha calça aparece direitinho.

Bah! Eu precisei passar para o outro lado da quadra pra pegar umas bolinhas que nossa equipe usaria em uma prova logo em seguida. Mais colegas pularam a grade comigo. Antes levávamos uma caixa enorme, cheia de bolinhas semelhantes àquelas das piscinas onde a gente mergulha, se escondendo ali.
Tínhamos pressa porque precisávamos vestir um macacão e venceria a prova quem conseguisse colocar mais bolinhas dentro da roupa. Na correria, nos esbarramos e várias bolinhas invadiram a quadra além-alambrado.

Dos cinco ou seis colegas, eu fui condecorada com o prêmio calça rasgada forever! Porque eu sou uma pessoa que em vidas passadas era cobaia da Lei de Murphy. Minha bolacha sempre cai com a Nutela virada pra baixo. Meu Nescau sempre fica fraco demais. Meu ônibus é sempre o que
parte minutos adiantados. A salada que eu não gosto sempre surge no meu prato. O molho do cachorro-quente sempre pinga na minha blusa. Minha prova é sempre a última a ser entregue... e por aí a tortura segue.

Naquele momento foi o Ó! Quando percebi minha perna presa num ferro enferrujado, um nó apertou minha garganta, um calafrio correu minha coluna, uma dor invadiu minha cabeça. Naquela fração de segundo, tudo o que eu não queria era olhar pra baixo. Mas pedi força pra nossa senhora protetora das meninas vaidosas, apertei os olhos, inclinei a cabeça e céus! Vi uma mistura de calça, sangue, ferrugem, bolinhas, gente ao meu redor.

Machucada e mesmo socorrida pela professora de Educação Física eu estava inconformada. Perdi minha calça! Nós tínhamos uma relação de apego inexplicável. Minha calça da sorte estava gravemente ferida!

Olhando a foto daquele dia e a cicatriz herdada, me ocorre outra lembrança: Uma semana antes eu menti pra minha mãe.

Usei a calça durante todo o final de semana, quando viajei pra casa de minha prima: sem a mãe saber! Ela até desconfiou (estou pesquisando sobre o porquê de elas sempre descobrirem nossos segredos), ficava incomodada porque eu queria usar sempre a mesma. Tive que falar que estava usando outras. É... Se castigo existe, não tem outra explicação. Depois do episódio da gincana, pedi que dessem um fim na peça de roupa.

Guardo a foto porque tem um menino lindinho do meu lado. Pena eu não poder - ainda - me livrar desta cicatriz no joelho. Um dia faço uma plástica...

10 comentários:

Cintia disse...

Meu Deus!! Só tu mesmo né hehe. Bom, eu teno fotos deste tipow.Mas tipow eu penso: Como fui usar isto?! Roupas,ex-namorados e 'ex-amigos', são assi, né nega?! A gente ri muito hehehe

beijossssssss

dona Marcia disse...

Rir é o melhor remédio, disse o sábio. Gargalhemos, então!
Beijooocas!

Klein disse...

Adorei Marcia.. já sou sua fã rs

dona Marcia disse...

Coxinha-moooor, brigadão pelo carinho.
Passe por aqui de vez em sempre, viu?!
Beijãaao!

lelenaltb disse...

Muito legal!!!Talentosa!Parabens!Academia De Letras que se prepare...
Beijo com muito carinho, Lelena.

dona Marcia disse...

Leleeeeena!

Bem vinda ao blog, que bom receber teu carinho.
Que nada... eu apenas gosto de brincar aqui, hehe.

Obrigada pela visita, amada!

Márcia Denardi disse...

KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK... Gostei demais. Mas quem nunca passou por uma aventura torturante dessas?? Nem te conto do dia em que fiquei menstruada pela primeira vez... Ai que vexame!

Cíntia Teixeira disse...

Oi, Marcinha! Passando pra conhecer o Abstrações. Já sou seguidora. E aí, enviou o conto pro Tabajara? (hehehehe). Enviei um beeeem meia boca, não consigo encontrar inspiração, guria. Arghs... Até o próximo findi, né? Beijo!

dona Marcia disse...

Oow, Dena! Conte pra nós no Versão Atual sobre a sua mazela, hehe. Beijos e saudades, linda!

Cíntia, não perdi um segundo da inspiração que surgiu naquela mesma manhã, mas ainda não enviei. Estou, digamos, tratando da criança, rss.
Brigadãao pela visita, bonita! Até o próximo find. Beijo pra vc também.

As Garotas disse...

Manu: Parabéns mãe !

Você é muiito talentosa, você tem capacidade para muitas coisas ainda...

(esta sua inspiração surgiu por causa das minhas mentiras, lembra? Deixa baixo ein?)


KKK' Beijos !